Pandemia: ‘professores estão suscetíveis ao adoecimento em massa’, alerta psicóloga do trabalho

Pandemia: ‘professores estão suscetíveis ao adoecimento em massa’, alerta psicóloga do trabalho
Sindicato dos Professores no Estado da Bahia vê com muita preocupação o aumento da demanda durante o trabalho remotoFoto: Reprodução

Escolas particulares e faculdades vazias. Aulas suspensas. Estudantes em casa. E os professores? Ah, estes estão quase enlouquecendo com tanta demanda das instituições para adaptar todo o planejamento presencial às aulas online. E não é só isso. A falta de familiaridade com o mundo virtual trouxe mais dor de cabeça. Os docentes se queixam que não houve (ou muito pouco) treinamento/orientação para esta mudança e estão se virando como podem.

A suspensão das aulas na rede municipal e particular da capital baiana foi anunciada pela prefeitura de Salvador, por meio de decreto publicado no Diário Oficial do Município (DOM), no dia 16 de março. A medida, com o objetivo de conter a disseminação da Covid-19 (novo coronavírus), passou a vigorar dois dias depois.

Reclamações

“A Instituição enviou tutoriais e ‘baixou’ portarias que deveríamos seguir. Muitas dúvidas surgiram e a maioria delas quem sanava eram colegas que tinham mais intimidade com o mundo virtual”, relata a professora Marina Pereira*, que dá aulas em uma faculdade. De acordo com ela, a instituição para a qual trabalha tem se mostrado muito impositiva e não abre espaço para diálogo com o corpo docente. “Emocionalmente, eu estou muito abalada. Muita cobrança, muita pressão, pouco tempo, muito trabalho e ainda tenho que lidar com duas crianças em casa”.

Quem compartilha desta queixa é o professor Roberto Damasceno*, que tem observado uma indiferença da instituição para com os professores. “A sensação que tenho é a de ser tratado como uma extensão do aparato tecnológico. A cada dia, somos demandados a promover uma série de atividades, que, inclusive, não faziam parte da nossa rotina, gerando uma sobrecarga de trabalho e, consequentemente, cansaço, estresse e angústia”, indigna-se.

As reclamações não param. Maria Clara* também é professora universitária e, há pouco mais de um mês da suspensão das aulas presenciais, já tem sentido as consequências do trabalho no esquema home office. “Como passo muito tempo sentada em frente ao computador, isso tem me rendido dores na coluna e estou com a retina ressecada”.

Defesa

O Sindicato dos Professores no Estado da Bahia (Sinpro-BA), que representa a categoria, vê com muita preocupação o aumento da demanda durante o trabalho remoto. “O que está havendo é um sobretrabalho muito significativo. Os professores estão trabalhando sete dias por semana, sem folga, sem recomposição da saúde física e mental, e ainda sofrem pressão das escolas para produzir vídeos, o que não é permitido”, afirma o coordenador-geral do Sinpro-Ba, Alisson Mustafá.

Segundo ele, uma professora relatou ter pedido demissão por não suportar a pressão da diretoria da unidade de educação. “A escola desconsidera a existência do professor enquanto ser humano. É preciso estabelecer relações mais humanizadas de trabalho”, sugere Mustafá. Dados do sindicato apontam que, na Bahia, há aproximadamente 40 mil professores nos ensinos básico e superior.

Nas universidades públicas, como na Universidade Federal da Bahia (Ufba), as aulas estão suspensas desde o começo de março. No entanto, as atividades administrativas, de pesquisa, orientação de graduação e pós-graduação, ou seja, todas que não exijam a presença em sala de aula, estão mantidas. A orientação das reitorias aos professores é a de que o docente não perca contato com o aluno.

Doenças

A psicóloga do trabalho e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Tânia Maria de Araújo, diz que o adoecimento mental na categoria não é de hoje e que tem se agravado cada vez mais. “Na última década, houve um aumento de 200% no afastamento do trabalho por transtornos mentais e comportamentais. Os professores podem adoecer por distúrbios ósteomusculares, agravo de voz e transtornos mentais (depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, ansiedade, transtorno delirante, entre outros). Isso tem a ver com a organização do trabalho”, revela.

Ainda de acordo com ela, estudos mostram a relação da produção contínua do hormônio do estresse (cortisol) com doenças cardiovasculares, baixa imunidade, hipertensão e outras doenças mentais. Ela chama a atenção e faz um alerta: “Estamos vivendo uma calamidade pública. Os professores estão suscetíveis ao adoecimento em massa”.

*Nome fictício para preservar a identidade da fonte

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5 Comments

  • Airton Cerqueira
    1 de maio de 2020, 14:21

    Quem é casado com professora, conhece muito bem esse trabalho que não para na sala de aula. Agora então, imagino o nível de exigências, estresse e pressão. Necessário rever esse modelo e preservar a integridade e dignidade desses profissionais que, não raro, precisam sacrificar o convívio com a família em função das metas estabelecidas pelos empregadores.

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  • Mari
    1 de maio de 2020, 19:05

    👏🏻👏🏻👏🏻

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  • Joelma Schur
    2 de maio de 2020, 06:13

    Concordo plenamente com a crítica apresentada, e observo que a classe docente não é vista como ser humano, mas Robô. Robô que precisa atender às demandas do capital. Robô ágil e atualizado, que precisa produzir o conhecimento aos quais foram previamente programados; às novas tecnologias. As empresas que se chamam escolas, nunca proporcionaram essas formações aos professores. Contudo os robôs, podem executar o programa sem
    Reclamações. O professor que ganha pouco, e o que ganha é para sustento seu e de sua família, ainda tem
    que investir o que não sobra em
    novos saberes. Recebem das empresas a imposição para o preparo de aulas on-line e cartas individuais, informando que seus salários serão reduzidos por que houve redução do trabalho. Afinal, as aulas são online e não todos os
    Dias. Não há uma reunião promovida pelas Instituições buscando de forma transparente e honesta, através do diálogo com o seu time, um caminho de saberes plausíveis para os dois lados. Há uma imposição e os professores,
    reféns e pouco politizados acabam cedendo às pressões. Professores são os novos escravos da era moderna. O patrão não considera aulas on-line trabalho integral, pois para ele o professor gasta 10min.para pesquisar, elaborar e montar os PowerPoints que muito nem têm em seus computadores. Precisam pagar o Windows para obter esse pacote, não esqueçam; e ainda precisam dominar as plataformas. Lamentável!!

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    • José @Joelma Schur
      3 de maio de 2020, 16:29

      Fico feliz que tem alguém vendo esse lado do professor, pois aqui em Feira de Santana, minha amiga Arlene está se vendo doida, o diretor cobra do coordenador o coordenador para não levar chamada cobra do professor e exige tudo perfeito, tem professor que trabalha com a mesma que nem computador tem em casa, tem que sair de sua casa para preparar aula na casa de amigas ou lan house, se arriscando a se contaminar, sem falar que tudo isso meche com o emocional da pessoa que não foi preparada capacitadamente para dar aulas online, em plena pandemia, professores inves de cuidar da saúde esta desgastando a saúde, e todo mundo ver que nao tem rendimento essas aulas onlines, poi se o alunos de nivel fundamental I e II não se concentra em sala de aula que o professor esta presente imagina em frente de um celular ou computador, é que nao se concentram mesmo, o professor no final da pandemia vai ter que fazer tratamento pois estaram exaustos

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  • Francisco Veras
    2 de julho de 2020, 14:12

    Interessante, e na maioria dos municípios que os professores estão em casa sem fazer nada a mais de 03 (três) meses sem terem produzido um único trabalho para seus alunos?? Deverão restituir os valores que receberam??

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