Pandemia dificulta situação de refugiados e imigrantes em Salvador

Pandemia dificulta situação de refugiados e imigrantes em Salvador
Com a pandemia, muitos tiveram que deixar de trabalhar e passaram por dificuldadesShirley Stolze | Ag. A TARDE

Por: Gabriel Andrade

Se, para quem está em seu país de origem, já tem sido difícil enfrentar os desafios que a pandemia da Covid-19 trouxe, para refugiados e imigrantes que vivem na capital baiana, os obstáculos são ainda maiores. “Agora com a pandemia nosso mundo acabou. Meu marido é fotógrafo, como um fotografo trabalha se não tem festas? Não tem comemorações, batizados, casamentos, eventos”, desabafou a professora de espanhol venezuelana, Alejandra Escalona.

Alejandra chegou ao Brasil cinco anos atrás, para estudar com uma bolsa de estudos em São Paulo. Porém, as coisas não saíram como o esperado. Com as dificuldades na capital paulista, ela teve que largar os estudos e decidiu se mudar com a família para Salvador.

Professora venezuelana enfrentou dificuldades com a pandemia | Foto: Reprodução | Arquivo Pessoal

Na Bahia, a situação também não foi fácil para ela. “Eu e meu marido não encontramos trabalho e precisamos nos virar, eu comecei a vender bolo no pote. Nunca tinha vendido nada na rua, nunca tinha passado necessidade no meu país”, conta.

Com o tempo, as coisas foram melhorando e Escalona trouxe para o Brasil a terceira filha, que ainda estava na Venezuela. Com a família completa, as coisas pareciam estar finalmente tranquilas para Alejandra. Aí veio a pandemia e desestruturou a estabilidade construída pela família.

A professora tem recebido ajuda de iniciativas como a Pastoral do Migrante, da Paróquia Ascensão do Senhor, comandada pelo padre Manoel Filho, que oferece doações e suporte para quem precisa.

Atualmente, 22 famílias de imigrantes estão sendo atendidas pela pastoral, algo em torno de 60 pessoas. A maior parte imigrantes é da Venezuela e de Cuba. A pastoral oferece não só doações de cestas básicas, mas também o encaminhamento médico, compra de remédios e encaminhamento do mercado de trabalho.

Para Manoel, a pandemia deixou a situação dos atendidos pela igreja ainda mais delicado. “Antes da pandemia, a gente conseguia arranjar algum emprego para eles, mesmo que com dificuldade. E como a gente tem um projeto de economia solidária na paróquia, eles pelo menos tinham uma renda mensal. Eles iam e vendiam dentro da própria igreja”, conta.

Natural da República do Togo, na África, o empresário Zakari Aboudouraoufou, dono de uma oficina de costura localizada na avenida Bonocô, também foi impactado pela crise causada pela Covid-19.

“Quando começou a pandemia, ficou muito difícil. Sem clientes e com o fechamento do comércio ficou muito ruim. Como minha loja é pequena, pude continuar trabalhando, mas sem eventos e sem festas, a produção não foi tão boa. Fiquei em casa sem trabalhar”, explica.

Mas a pandemia também trouxe novas ideias. O tongolês decidiu se reinventar e começou a produzir máscaras para vender e também doar. “Tenho uma loja de roupas e não vou fazer máscaras? Aí comecei a pegar meus próprios tecidos africanos para produzir as máscaras”. Para ele, isso é uma forma de ajudar o país que ama.

Já Alejandra passou a dar aulas de forma online como uma forma de voltar a ter renda e também de se proteger. “Eu também não quero me arriscar. Eu tenho três filhos”, acrescenta.

Dados

Zakari e Alejandra são dois de muitos imigrantes internacionais que chegam a Salvador todos os anos. De acordo com o Atlas Temático: Migrações Internacionais na Região Nordeste, realizado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Bahia é o estado do Nordeste que mais recebe migrantes internacionais.

O atlas mostrou que, entre 2000 e 2017, 117,9 mil migrantes internacionais registrados se instalaram na região Nordeste, a maior parte deles no estado da Bahia (36,2 mil). Em segundo lugar vem o Ceará, com a presença de 26,4 mil migrantes

Pensando na grande quantidade de pessoas de outros países que chegam à capital baiana, a Universidade Salvador (Unifacs) promove desde 2019 um curso de Português e Cultura Brasileira para refugiados e migrantes.

Segundo a coordenadora do Centro de Serviços ao Migrante da instituição, Rafaela Ludolf, esse trabalho é fundamental, especialmente porque a base familiar dessas pessoas está em outro país. “Muitos chegam com a saúde debilitada e, com a pandemia, sofrem na procura de emprego, pois existe um grande limitador pra realização das atividades informais”, explica

O primeiro semestre contou cerca de 90 inscritos, distribuídos em oito turmas, que reuniram pessoas do mundo todo. Neste ano, por conta da pandemia, as aulas serão realizadas de forma online. O link para as inscrições pode ser encontrado no Instagram do projeto e as aulas começam em setembro.

Esperança

Apesar das dificuldades, Alejandra tem fé de que tudo vai melhorar em breve. “Sempre peço ‘meu deus, que todo mundo esteja bem, tenha saúde e que tudo melhore’, não vai voltar 100% igual a antes, mas vai melhorar. Tenho fé, nossa vida mudou e temos que ter fé de que tudo vai melhorar”, acredita.

Após a reabertura, Zakari voltou a abrir a loja, respeitando as medidas de restrição. Para ele, agora as coisas estão voltando a melhorar. “Tudo isso me ajuda, muitas roupas minhas os turistas que compram, pessoas que estão indo em festas. Agora com a reabertura estou agradecendo a Deus”, finaliza.

Como ajudar?

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados dá cinco dicas para quem quer ajudar os refugiados e imigrantes nesse momento de dificuldade.

  1. Faça um intercâmbio cultural ou aulas de idiomas online com refugiados
  2. Converse com as crianças sobre a experiência dos refugiados — e aprenda junto com elas
  3. Apoie negócios de refugiados (ou empresas que auxiliam refugiados)
  4. Leia livros escritos por autores refugiados
  5. Faça uma doação

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