O novo normal da cultura: especialistas debatem caminhos da área no pós-isolamento

O novo normal da cultura: especialistas debatem caminhos da área no pós-isolamento
Encontro foi organizado pelo Grupo A TARDEFoto: Reprodução | YouTube

Um dos setores mais afetados pela pandemia do novo coronavírus, a cultura foi tema de debate por grandes nomes da área, a convite do Grupo A TARDE na Mesa Redonda: “Como será o Amanhã – Cultura na crise e o Novo Normal”. Realizado nesta quarta-feira, 12, o bate-papo contou com as presenças de Fernando Caramurê, Fernando Guerreiro, Piti Canella, Rosenberg  Valverde e Vânia Abreu.

Para o ator, produtor e diretor teatral Fernando Guerreiro, a cultura foi um dos primeiros setores a ser atingido pela crise gerada pela pandemia e será o último a voltar ao normal. “Não existe um ponto final para a pandemia. Mesmo com a vacina, as coisas não vão voltar rapidamente É tudo muito dinâmico, a cada momento, pode mudar. Não dá para viver o amanhã, estamos vivendo uma adaptação”, pontuou ele, que também é o atual presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM), em Salvador. 

A cantora e escritora Vânia Abreu contou que teve shows e gravações e lançamentos de livros interrompidos devido ao isolamento. Ela ressaltou que junto com ela, a cadeia produtiva por trás dos artistas como produtores, maquiadores e técnicos ficaram desamparados. “Fiquei sem entender o que eu podia fazer. Não consegui patrocínio para fazer lives”, conta.

Considerada uma alternativa em meio a proibição dos shows presenciais, Vânia acha que o audiovisual acaba perdendo com esse tipo de apresentação. “Quando olho a relação das lives com as pessoas, acho vazia. Vazia de sentido. Também recebi convite para fazer show drive-in, mas fiquei insegura, as pessoas estão  vivendo uma crise econômica muito grande”, afirmou.

Lei Aldir Blanc

Na discussão sobre o que o amanhã reserva para a cultura, uma das questões mais lembradas foi a Lei n° 14.017/20, ou Lei Aldir Blanc, como é mais conhecida. Recentemente sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, o texto prevê o pagamento de um auxílio de R$ 600 mensais para artistas informais como parte de um pacote de R$ 3 bilhões para a área, a serem transferidos da União para estados, Distrito Federal e municípios.

“Esse dinheiro já era nosso. Foi uma grande vitória esse dinheiro ser encaminhado para o fundo. Estou aguardando ansiosamente a regulamentação para trazer esse dinheiro pra gente e rezar para que a gente (classe artística) saiba gastar de uma forma bacana, bonita, que atenda muita gente. Quanto mais gente, melhor. Que esse dinheiro consiga chegar naquela ponta do artista que precisa muito”, disse Piti Canella, produtora e integrante da Secretaria de Cultura do Estado (Secom).

Fernando Guerreiro, no entanto, alerta que para receber o dinheiro, a classe artística vai precisar se organizar quanto a documentação, já que, segundo ele, a lei foi construída de forma muito aberta e generalizada. De acordo com o gestor, 40% da documentação analisada por ele não atendia a requisitos mínimos. “Essa informalidade da classe artística e dos agentes culturais é um problema gravíssimo hoje”, assinalou.

“Ela (a lei) foi construída de uma forma muito aberta. Está trazendo pra gente uma dificuldade enorme na área burocrática. A Fundação está tentando praticamente 90% decupar pra não cair em algum erro jurídico. Outra coisa: o prazo está começando a ficar complicado. Quero aproveitar para dizer à classe artística se mobilize: se essa regulamentação não sair até semana que vem, a lei cai. Quanto menos tempo a gente tem, menos tempo temos para operacionalizar os projetos até o fim do ano”, avisa.

A gente pode aproveitar desse momento em que tudo foi obrigado a parar para se organizar. Acho que assim a gente pode construir o amanhã”, opinou Vânia Abreu.

A falta de dados consistentes da classe artística – apontada pelos especialistas como correspondente a apenas 3% ou menos do PIB – também foi criticada pelo economista Rosenberg Valverde.

“Esse número é completamente falho porque mede as atividades diretas da cultura sobre a economia. Na verdade, a cada atividade que você gera, temos uma série de efeitos indiretos que não são contabilizados. Portanto as atividades culturais são muito mais importantes do que os 3% do PIB. Então é preciso que a gente mensure esses dados indiretos. A cultura é muito maior do que isso, então merecia um destaque maior”, afirma. 

O novo normal

Outro debate dos especialistas foi o “novo normal” deixado pela pandemia. Para o mediador da conversa, Fernando Oberlaender, mesmo com a chegada da vacina contra a covid-19, será mais difícil realizar eventos devido a falta de patrocínio. “Acho que a gente tem que começar a se organizar para convencer a esses empresários junto com a iniciativa pública”, diz.

Ele aposta que a festa terá de se transformar e que o carnaval de Salvador, por exemplo, terá de se readequar e que pode por exemplo, perder uma das suas principais características: o trio elétrico. “Acho meio difícil a gente ter nos próximos três anos um carnaval com mais de R$ 3 milhões de pessoas na rua”, afirma.

Já Fernando Guerreiro discorda e aposta que em 2022 a situação já esteja normalizada. “O contato humano é insubstituível. Acho que quando os teatros puderem reabrir, você vai ter salas lotadas. A internet vai entrar junto, o que a gente conquistou vai entrar junto. O carnaval, por exemplo, não existe sem essa presença física”, pontua.

“O próprio São João deste ano já teve gente aglomerada, soltando espada, nas fogueiras, bairros e ruas. Em 2021 eu não vou para a rua, mas o povo quer ir para a rua, vai ser uma loucura”, prevê Piti Canella.

“Vamos ter que nos reinventar, ser artistas e criativos diante de todas as circunstâncias”, aponta Fernando Oberlaender.

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