Entre alta nas vendas e automedicação, especialistas divergem sobre cloroquina contra o coronavírus

Entre alta nas vendas e automedicação, especialistas divergem sobre cloroquina contra o coronavírus
Em entrevista ao Portal A TARDE, especialistas falam se recomendariam ou não o uso do medicamento e porqueFoto: Irineu Junior | Prefeitura de Suzano

Desde o início na pandemia do novo coronavírus, nenhum medicamento foi alvo de tanta polêmica no Brasil quanto a cloroquina e sua “irmã”, de efeitos colaterais mais amenos, a hidroxicloroquina. Mesmo tendo defensores famosos como o presidente Jair Bolsonaro, o uso da substância voltado ao combate do vírus não é recomendado por grande parte da comunidade médica e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que suspendeu seus testes com os remédios em diversos países.

Conhecidos e utilizados há décadas para enfermidades como malária e artrite reumatoide, os medicamentos passaram a ser cogitados para o tratamento da covid-19 porque observou-se que vírus não se multiplicavam por conta da ação anti-inflamatória dos fármacos. No entanto, até agora, não há uma pesquisa de respaldo que sustente a indicação tanto para casos leves, quanto para os quadros graves da doença. 

Atualmente, o tratamento com a cloroquina e hidroxicloroquina é reconhecido pelo Ministério da Saúde, porém, o órgão não obriga médicos e pacientes a adotarem o protocolo. O assunto gera debate e divide opiniões. Em conversa com o Portal A TARDE, os médicos Clarice Seba e Matheus Todt, falaram se recomendariam ou não o uso destes medicamentos e porque.

Coordenador de ações voltadas ao controle da pandemia e educação da população e dos profissionais de saúde, o infectologista Matheus Todt diz que não prescreve ou recomenda a hidroxicloroquina devido a falta de evidências científicas que justifiquem o uso.

“Até o momento, o que sabemos, é que é um medicamento não eficaz contra a covid-19 e que tem efeitos colaterais potencialmente graves”, afirmou. Dentre as principais implicações citadas por ele e também na própria bula do remédio estão as arritmias cardíacas, alterações neurológicas, distúrbios de visão e irritação gastrointestinal.

Em contrapartida, a otorrinolaringologista Clarice Saba, diz que cloroquina e hidroxicloroquina podem evitar que a doença evolua e o paciente necessite de internamento. Ela, que é diretora de Comunicação e Imprensa do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (Sindimed), também é uma das coordenadoras na Bahia do projeto Médicos pela vida, grupo adepto ao chamado tratamento precoce, com uso de tais medicações aliadas a Ivermectina, Azitromicina, Zinco e Vitamina D.

“Tratamento precoce é quando médico recebe o paciente para consulta inicial e ele suspeita de que a pessoa está com a covid-19. Quando ele chega na fase 1 ou na 2A ou até 2B, você poderia fazer o tratamento precoce que tem chances dele responder”, diz.

Ela explica que o tratamento precoce é baseado na combinação dos medicamentos e que depende da fase na qual o paciente está e das suas comorbidades. No entanto, ela concorda que o protocolo não tem efeito na internação, mas que serviria para evitar de chegar neste ponto.

“A hidroxicloroquina não é uma medicação que tenha efeito colateral a ponto de ser demonizada. Porém, é preciso ver se o paciente tem alguma contra-indicação ou se pode ter alguma interação medicamentosa ou comorbidade antes de receitar”, defende. 

O infectologista Matheus, por sua vez, ressalta a postura defendida pela OMS e pela grande maioria de profissionais e órgãos de saúde, que é a inexistência de tratamento farmacológico preventivo. 

“Infelizmente ainda não dispomos de tratamentos preventivos ou curativos. Temos que lembrar que mais de 80% dos casos sequer sentirão a infecção, portanto não precisam tomar medicamento algum. Os 20% que necessitarão de cuidados médicos devem receber suporte clínico. O único tratamento eficaz para os casos graves é hospitalização, monitorização, oxigênio e, quando necessária, intubação e ventilação mecânica”, discorda.

O infectologista Matheus Todt é contra o uso da cloroquina em qualquer etapa do tratamento contra a covid-19

Alta nas vendas

A falta de consenso entre a comunidade médica, no entanto, parece não ter sido suficiente para impedir que a cloroquina fosse considerada uma opção para o tratamento do coronavírus pela população. Segundo pesquisa do DataPoder360, realizada em parceria com o Grupo A TARDE, 51% dos entrevistados na Bahia disseram que utilizariam a substância caso fossem infectados. 

Conforme o levantamento, 37% dos baianos responderam que não usariam a droga se ficassem doentes e 12% não se manifestaram. O grupo com maior tendência a responder que tomaria o medicamento avaliou o governo Bolsonaro como ótimo ou bom (71%). Entre quem avalia o governo de maneira negativa, a recusa ao remédio chegou a 55%.

A aceitação da droga na Bahia foi, inclusive, maior do que a média nacional. A pesquisa mostra um empate no Brasil, com 43% dos entrevistados dizendo que tomariam cloroquina e 42% respondendo que não tomariam a droga. Outros 15% preferiram não responder.

Em Salvador, a maioria (49%) afirmou que não faria uso do medicamento para tratar o coronavírus, enquanto 34% afirmaram que utilizariam. Cerca de 17% dos consultados não se posicionaram a respeito.

Os números da pesquisa refletem nas vendas. De acordo com o presidente do Sindicato dos Farmacêuticos da Bahia (Sindifarma), Magno Teixeira, houve um aumento na demanda do remédio no estado, porém, ainda não há dados sobre a porcentagem oficial. Toda prescrição à base de cloroquina ou hidroxicloroquina precisa ser feita em receita especial de duas vias.

A otorrinolaringologista Clarice Seba defende o uso da cloroquina na fase inicial da covid-19

Ivermectina em pauta

Outro medicamento que também está no centro da discussão é a ivermectina. O fármaco teve um crescimento das vendas no mercado legal de 1.222% em junho deste ano, com 8,6 milhões de caixas, na comparação com junho/2019, quando 650 mil caixas foram comercializadas, segundo levantamento do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) e do Conselho Federal de Farmácia (CFC).

Conforme a pesquisa, ao todo, mais de 16,8 milhões de caixas já foram vendidas nos seis primeiros meses de 2020. Uma das compradoras foi a aposentada Eliana**, 77. Ela, que mora no município baiano de Tapiramutá (a 450 km de Salvador), decidiu usar a Ivermectina por conta própria depois que a cidade de 20 mil habitantes registrou um aumento dos casos de covid-19.

“Eu e meu marido tomamos. Eu vi no YouTube alguns médicos dizendo que é bom pra covid, uma vizinha também falou. Se bem não fizer, mal também não faz porque mata os vermes e outros parasitas (risos)”, contou.

A automedicação, claro, foi condenada por ambos os especialistas ouvidos na matéria. Clarice, que defende o uso no protocolo precoce, diz que é preciso buscar avaliação médica para saber se o medicamento pode ser de fato empregado, e qual seria a dose indicada.

“Infelizmente o debate se politizou, misturou política com medicina e aí quem perde são os pacientes. O tratamento precoce pode ser feito tanto com doses de hidroxicloroquina quanto de ivermectina, mas também não pode sair loucamente usando sem orientação. Tem que procurar o médico, é ele quem vai saber o que receitar”, diz.

Já Matheus descarta totalmente. “O uso eventual da Ivermectina é relativamente seguro, embora não livre de riscos. O problema é que o medicamento não tem efeito contra o coronavírus e, além disso, tem sido usado em doses muito acima do recomendável. Há risco de complicações hepáticas graves e mesmo de morte pelo uso inadequado da Ivermectina. Portanto, ela definitivamente não deve ser utilizada para prevenção/tratamento da covid-19”, afirma.

Em meio a divergência, a busca pela segurança não deve ser questionada. Enquanto o mundo espera ansiosamente por uma vacina, o uso das máscaras, a higienização de mãos e superfícies e a distância das aglomerações são atitudes que não devem ficar de lado.

Presidente do Sindifarma, Magno Teixeira, afirma que houve aumento nas vendas da cloroquina na Bahia

*Sob supervisão da editora Keyla Pereira
**Nome fictício

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