Cultura: reinvenção é o caminho para amenizar impactos deixados pela pandemia

Cultura: reinvenção é o caminho para amenizar impactos deixados pela pandemia
Para especialistas em cultura, arte deve apostar na criatividadeFoto: Reprodução | Freepik

Salas de cinema vazias, exposições interrompidas, ingressos cancelados, cortinas fechadas. Ao mesmo tempo que é uma das maiores aliadas da saúde mental em tempos de pandemia, a arte, em suas mais diversas manifestações culturais, foi também uma das áreas que mais sentiu o peso das medidas de contenção do novo coronavírus. Os efeitos do distanciamento social devem acompanhá-la ainda por muito tempo e consequentemente, mudar a sua forma de consumo, segundo os especialistas.

Acho que a pandemia mostrou pra humanidade o quanto o cinema e as artes em geral são fundamentais.

Ana Rosa Marques, especialista em Cinema da UFRB

Para o presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM), em Salvador, Fernando Guerreiro, o impacto do isolamento social para a cultura foi imediato. Segundo o gestor cultural, mesmo com a ajuda da tecnologia, o retorno financeiro ainda vai demorar de vir.

“O impacto vem em todos os setores, na hora que você tira a plateia, o presencial, as artes vão embora. Por mais que a gente esteja se reinventando, que as pessoas possam pagar por lives, que os patrocinadores estejam começando a fazer isso, é um processo lento. Em um primeiro momento, só vai capitalizar grandes artistas, então, tem um déficit grave acontecendo”, lamenta.

Além da falta de frequentadores nos espaços culturais, outra grande consequência da limitação de pessoas foi a interrupção de produções como filmes, peças teatrais, séries e programas de televisão, em todo o mundo. Um dos maiores nomes do Bando de Teatro Olodum, a atriz e produtora Valdineia Soriano conta que devido a pandemia, teve dois seriados com as gravações interrompidas, além das próprias comemorações de aniversário do Bando, que em 2020, completa 30 anos de criação.

O presidente da FGM, Fernando Guerreiro, teme pelos pequenos artistas e agentes culturais | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

“O Bando tinha uma programação extensa pensando nos 30 anos, tudo vai ter que ser revisto, porque a sensação que você tem é que 2020 já foi para realizar projetos. Agora é reinventar o projeto inicial, a gente vem conversando muito nesse sentido”, conta.

Dos palcos para as telonas do cinema, a situação é a mesma, com estreias paralisadas e a incerteza de um retorno tanto para as filmagens dos longas, quanto ao retorno das salas coletivas. No entanto, o acesso a sétima arte se mantém garantido principalmente por meio das plataformas de streaming, que em meio ao movimento do “fique em casa”, não param de agregar assinantes. 

Segundo a coordenadora e professora do curso de cinema da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Ana Rosa Marques, a alta demanda mostra a importância social do cinema. No entanto, de acordo com a estudiosa, o distanciamento das salas de exibição já vinha sendo observado antes mesmo da pandemia, devido a fatores como a violência das grandes cidades, a falta de incentivo da convivência, o preço do ingresso e o monopólio dos blockbusters.

“Já há algum tempo o consumo de cinema vem mudando. Vemos filmes na TV, no computador, no celular. Para muita gente, a pandemia intensificou o consumo de filmes e mostra como o cinema é fundamental nas nossas vidas. Mas enquanto não houver vacinas e remédios, que nos protejam eficazmente, acredito que aglomerações serão evitadas e essas outras plataformas serão nossas alternativas”, opina.

Fora da cena

De modo geral os três especialistas citaram a produção independente e pequenos artistas que necessitam do ofício para sobreviver como sendo os mais prejudicados pela situação. Segundo Fernando, a iniciativa municipal já está promovendo a distribuição de cestas básicas para os agentes culturais e tenta agora incluir o grupo no pagamento do benefício municipal de R$ 270 do projeto ‘Salvador Por Todos’, que atualmente contempla trabalhadores informais.

Ainda nesse quesito, uma medida que poderia ajudar seria a aprovação do Projeto de Lei nº 1075/2020, que prevê o uso de recursos provenientes do Fundo Nacional de Cultura (FNC) para reduzir os impactos no setor cultural. A proposição está em análise na Câmara dos Deputados.

“Provavelmente as exigências sanitárias e os cuidados à saúde na feitura e exibição dos filmes trarão maiores custos. Assim, é bastante preocupante a sobrevivência dos produtores independentes e dos exibidores, especialmente das pequenas salas, que certamente terão mais dificuldades de se reerguer quando a pandemia passar”, ressalta Ana Rosa, que se preocupa principalmente com o cinema nacional.

Acredito que quando tudo voltar a se normalizar, a gente vai ter um público que nunca tivemos na vida.

Fernando Guerreiro, presidente da FGM

Tido como um dos grupos independentes mais conhecidos da Bahia, Valdineia também demonstra apreensão pelo futuro do Bando e aponta que as dúvidas do agora custam caro para quem precisa de público para sobreviver.

“A gente que vive de teatro, o que fazer agora? Eu não consigo mais visualizar uma casa lotada. Você se entristece, cria pequenas expectativas, existe uma dificuldade de pensar muito adiante, a gente quer resolver o agora. O Bando não tem patrocínio, então ele realmente precisa do público, daquela plateia. Então você sofre por não estar no palco fazendo seu ofício e pelo seu lado financeiro também, lamenta.

“Uma grande lição que estou tentando puxar nesse momento é a de que os agentes culturais estejam mais unidos em pontos comuns. Parece uma contradição, mas o momento em que você está mais isolado é o momento que você precisa estar mais ligado ao coletivo”, torce Fernando.

Atriz e produtora Valdineia Soriano diz que a programação do aniversário de 30 anos do Bando de Teatro Olodum vai ser alterada | Foto: Valmyr Ferreira

A arte do futuro

E o que fazer para tentar reverter o cenário desfavorável em um futuro próximo sem colocar a saúde em risco? A saída pode ser um dos termos mais conhecidos pela classe artística: a criatividade. No entanto, a previsão do trio foi a mesma: o retorno aos centros culturais não vai ocorrer tão rapidamente e as pessoas terão que mudar um pouco os próprios hábitos de consumo.

“Para o futuro duas coisas começam a se desenhar: primeiro, a volta do drive-in, algo que só estava na nossa memória. O teatro, em um primeiro momento, vai ter que reduzir a quantidade de pessoas na plateia, que vão ter que ficar afastadas, de máscara. A bilheteria vai ter que funcionar online, esqueça café e aglomeração e provavelmente você vai ter no palco, monólogos. A quarentena cultural vai ser maior do que a quarentena de saúde e por isso, é preciso aí, a reinvenção”, diz Fernando, que, a frente da FGM, já está trabalhando com a possibilidade de não haver comemoração de 2 de julho.

“Seremos os últimos a voltar à cena, então, vamos ter que ser criativos e estar muito junto. Acho que vamos ter que colocar as peças de teatro em algumas plataformas, para que possam ser assistidas e talvez aí um bate-papo com o público, leitura dramática, seja gravado ou live, mas sempre filmado. Mas tudo isso ainda é um pouco resumido, porque teatro é troca. Eu tô no palco, e você na plateia e você vai me olhar no olho e vai me entender, se emocionar, rir chorar e a gente se olhar, olho no olho. A beleza do fazer teatral é a energia presencial”, afirma Valdineia.

Quanto ao cinema, mesmo com o crescimento do streaming, Ana Rosa diz que a experiência nas salas coletivas poderá ser substituída pelo drive-in e outros tipos de exibições públicas. “Ainda há muita gente, na qual eu me incluo, que aprecia um aspecto essencial do cinema que é o fato de ser uma experiência coletiva e que demanda concentração, então a volta dos drive-ins é uma possibilidade e acredito que outras estejam sendo estudadas”, opina. “Quem gosta de concentração e de partilha de uma experiência vai continuar querendo ir ao cinema assim que isso for seguro”, acrescenta.

A especialista em cinema Ana Rosa Marques acredita que drive-in pode ser alternativa para o fechamento das salas de cinema | Foto: Divulgação

Citado tanto por Ana Rosa, quanto por Fernando, o drive-in pode se tornar em breve, uma realidade em Salvador. Segundo Guerreiro, existem estudos para a aplicação deste tipo de exibição, que já pode ser visto em outros estados do Brasil, no pátio do Espaço Cultural da Barroquinha. Outra grande tendência, popularizada principalmente na música, as lives fazem parte da proposição de edital emergencial da FGM. 

Para garantir que as atividades culturais não parem, há todo um plano pós pandemia da Fundação, em parceria com outras entidades municipais. Algumas medidas incluem a ampliação dos prazos de editais, a mudança de projetos para o formato digital, a exemplo do Fábrica de Musicais, além de zerar as pautas nos espaços da instituição. 

Seremos os últimos a voltar à cena, então, vamos ter que ser criativos e estar muito junto.

Valdineia Soriano, atriz e produtora

Porém, Fernando aposta que, ao mesmo tempo em que a cultura terá de descobrir novos formatos para sobreviver, em um futuro remoto, a demanda pela experiência coletiva será alta. “O desejo pelo presencial vai aumentar muito porque a falta leva ao desejo. Então, acredito que quando tudo voltar a se normalizar, a gente vai ter um público que nunca tivemos na vida”, diverte-se.

Valdineia diz que a arte do futuro também levará consigo um outro olhar adquirido depois da pandemia.”Precisaremos nos reinventar, não podemos voltar como se nada tivesse acontecido até porque nós também estamos com outro olhar, a sensibilidade para outra coisa”, ressalta. 

Acho que a pandemia mostrou pra humanidade o quanto o cinema e as artes em geral são fundamentais para a nossa existência individual e coletiva e espero que a sociedade reivindique e lute por sua valorização, preservação e disseminação”, deseja Ana Rosa.

Seja na música, teatro, cinema, entre outras formas de arte, no fim, como se tivessem combinado entre si, o desejo de todos os entrevistados nesta matéria foi o mesmo: que a pandemia termine, as pessoas voltem a sorrir, e que a saúde ande de mãos dadas com a cultura, afinal, como já cantava Elis Regina, o show de todo artista tem que continuar.

Últimas Notícias

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *