Moradores da periferia questionam eficácia das ações de conscientização

Moradores da periferia questionam eficácia das ações de conscientização
Comércio de rua funciona normalmente em CajazeirasFoto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE

Moradores de bairros periféricos de Salvador questionam a efetividade de medidas dos governos estadual e municipal para conscientizar a população sobre a importância do isolamento social para evitar a proliferação do novo coronavírus (Covid-19). Apesar do apelo para que as pessoas fiquem em casa e evitem aglomerações, era possível ver, ontem, muita gente na rua nas comunidades.

A imagem não é diferente da que vem se repetindo nos últimos dias. Mas agora há um agravante: o coronavírus chegou às periferias de Salvador, algo que aumenta a necessidade do isolamento. Dados da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) apontam que, dos 63 casos da doença detectados na cidade até ontem, pelo menos seis deles estão em São Caetano, Cajazeiras, Engomadeira, Santa Tereza, Itapuã e Massaranduba.

Com maior vulnerabilidade socioeconômica, os bairros preocupam pelos efeitos negativos na saúde dos moradores. Na Bahia, segundo dados da pesquisa Datafavela, feita pela Central Única das Favelas (Cufa) em parceria com o instituto Locomotivas, 5% da população vive em favelas.

O fato de pessoas que vivem na periferia se submeterem ao risco de contaminação, mesmo com a quantidade de informações que circulam sobre o assunto, tem explicação, para moradores e líderes comunitários. Eles apontam que a forma como o poder público tem se comunicado com as pessoas para conscientizá-las não tem sido efetivo. Atualmente, umas das principais ações da prefeitura e do governo do estado é distribuir carros de som pelos bairros com mensagens que pedem para que todos fiquem em casa.

Coordenador do site Fala Cajazeiras, Eduardo da Luz mostra que as pessoas têm buscado informação sobre a doença. A prova é que a audiência do veículo subiu mais de 150% nos últimos dias, de acordo com ele, por causa da publicação de notícias relacionadas à Covid-19. Ele defende que a prefeitura tenha ação mais efetiva no bairro, para convencer a população de maneira mais direta.
“Seria interessante uma ação mais direta da subprefeitura, numa atuação mais integrada com o bairro. Cajazeiras precisa ter atenção especial maior, porque, com o tamanho e a densidade populacional daqui, a probabilidade de o vírus se alastrar é maior”, pontua.

Protagonismo
Para intensificar as ações de conscientização, a própria comunidade tem se organizado e tentado, no corpo a corpo e por grupos de WhatsApp, passar orientações. Eduardo afirma que, diariamente, tem ido a alguns pontos fazendo transmissões ao vivo mostrando o movimento e também conversando com as pessoas sobre a importância do isolamento.

E a tarefa é árdua. De acordo com ele, ontem, por exemplo, mesmo após divulgação de que há um caso confirmado de Covid-19 em Cajazeiras, foi possível encontrar muitos pontos de aglomeração. “A Rótula da Feirinha, Rótula da Cajazeiras 5, primeira etapa de Cajazeiras XI, o comércio estava funcionando menos, mas além do que deveria. Existe também o fator de risco das lotéricas, que são superlotadas”, explica.

Editor da Agência de Notícias das Favelas no Nordeste, Paulo de Almeida Filho considera que as “mensagens institucionais estão rasas” e que existe muita informação pulverizada, o que não contribui para que as pessoas recebam orientações confiáveis.

“O que a gente percebe é que um grande número de pessoas não tem dimensão do risco que estamos vivendo. Se elas desconsideram essa mensagem, é porque talvez a mensagem não esteja tão acessível. Tanta informação tem gerado desinformação”, avalia Paulo, que ainda aponta limitação na estratégia de governo e prefeitura com os carros de som. “Em algumas vias, o carro de som não chega porque não consegue passar, o que deixa aquelas pessoas sem informação”.

Morador de São Caetano, onde também há caso confirmado de Covid-19, o professor de história Felipe Mendes percebe menos circulação de pessoas no bairro, mas avalia que outras formas de comunicação mais utilizadas atualmente pelas pessoas pode retirar das ruas quem insiste em não sair delas.

Aproximação
“Ou o poder público reforça essa linguagem a partir do WhatsApp, ou vem com a Guarda Municipal para efetivar esse processo. É preciso mais aproximação com as pessoas para passar essa mensagem, de uma linguagem que esteja mais dentro do dia a dia da comunidade”, afirma.

Para a líder comunitária de Cajazeiras Bárbara Trindade, no entanto, tem havido negligência da população, que recebe informação em várias frentes. Ela tem se mostrado preocupada com o impacto econômica da doença nas periferias da capital. Dona de uma instituição social, tem organizado cestas básicas para distribuir em comunidades mais carentes da cidade.

Bárbara (c) com sua filha Ana Beatriz (d), sua esposa Jamile Alves (e) e sua netinha Luanda. Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE

“Tem muita ignorância das pessoas também. Fiquei muito chocada quando fui conversar com um rapaz que estava jogando numa quadra, e ele me dizendo que ‘isso [coronavírus] é besteira, é exagero’”, critica.

Pesquisa Datafavela, feita pela Central Única das Favelas (Cufa) em parceria com o Instituto Locomotivas, dá dimensão do quanto o coronavírus pode colocar em risco a renda da população periférica no país.

Segundo o estudo, feito em 262 favelas de vários estados do Brasil, 72% dos 1.142 entrevistados relataram não ter nenhuma renda caso percam a fonte de sustento. Para 86%, vai faltar dinheiro para compra de itens básicos, como comida; 97% disseram ter tido alguma mudança na rotina por causa da Covid-19.

Ao A TARDE, o secretário municipal da Saúde, Leo Prates, se defendeu das críticas e disse que a prefeitura tem feito um trabalho “maravilhoso”. De acordo com ele, 100 carros de som foram colocados para rodar pela cidade, além de avisos em outdoors e publicidade no rádio e na TV. Além disso, a gestão tem disparado SMS com orientações para os celulares de quem usa a rede pública de saúde.

O governo do estado destacou que, além das viaturas do Corpo de Bombeiros com mensagens pedindo que a população fique em casa, tem colocado policiais militares nas ruas para cumprir os decretos de isolamento social emitidos pelo governador Rui Costa. Outra ação é orientar que as pessoas denunciem ao 190 possíveis descumprimentos às normas baixadas pelo petista.

Tecnologia é aliada no combate à doença

Apesar de uma vacina contra o vírus ainda não ter sido encontrada, a tecnologia é aliada de estratégias para reduzir a proliferação da doença. Na terça-feira, o prefeito de Recife (PE), Geraldo Júlio (PSB), anunciou que a gestão vai monitorar 700 mil aparelhos celulares para acompanhar como o isolamento social tem sido cumprido na capital pernambucana. Com a iniciativa, o gestor público também pretende coletar dados que possam basear uma série de outras ações na cidade.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Nelson Pretto diz que iniciativas como a dos carros de som adotados em Salvador e no estado são importantes, mas pondera que outras iniciativas precisam ser desenvolvidas pelo poder público, principalmente com o uso de tecnologias, como acontece em Recife.
Sugestões
“Temos hoje um conjunto de ferramentas tecnológicas, como os mensageiros instantâneos, Twitter, Facebook, WhatsApp, redes que estão fortemente na vida das pessoas. Seguramente, teríamos que estar desenvolvendo, e esse desenvolvimento, é claro, não poderia ser algo apenas nesse momento de crise, mas uma política de ciência e tecnologia do município para que tivéssemos laboratórios cidadãos espalhados por todos os bairros da cidade, de tal forma a colocar a meninada a, junto, produzir soluções tecnopolíticas, que são soluções que articulam tecnologia e política”, diz.

Ele cita iniciativas como a “Frena la curva”, um mapa interativo online desenvolvido na Espanha, que coloca em contato pessoas que precisam de ajuda com vizinhos que possam oferecê-la, em tempos de pandemia no país.

WhatsApp
Paulo Almeida Filho sugere que a comunicação seja reforçada em canais como o WhatsApp. “Hoje na favela, toda família tem pelo menos alguém com celular conectado com internet. Existem os cadastros de estudantes nas escolas, de pessoas nos postos de saúde. Através desse cadastro, que tem número de telefone, eles poderiam fazer uma ação mais massiva por essas redes”, afirma.

Pretto ainda defende que as autoridades devem pensar em técnicas de combate ao coronavírus que extrapolem a questão comunicacional. De acordo com ele, é preciso utilizar tecnologia para se produzir equipamentos de baixo custo para a população.

“Temos visto em outros países grupos que trabalham fortemente nessa ideia de articular um conceito de ciência aberta e ciência cidadã. É preciso capacitar fazedores para produzir respiradores artificiais a baixo custo, com licenciamento aberto para impressão em impressoras 3D. Vejo também grupos que estão produzindo máscaras de proteção. São iniciativas para se prestar atenção e serem implementadas”, sugere.

Últimas Notícias

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *