Máscaras artesanais são alternativa para proteção diante da falta de EPIs

Máscaras artesanais são alternativa para proteção diante da falta de EPIs
A costureira Elka recebeu ecomendas de centenas de máscarasFoto: Arquivo Pessoal

“Costuro sozinha e meu trabalho é com amigurumi (bichinho feito de crochê) e sapatinho para bebê, mas a oportunidade das máscaras veio como uma alternativa de renda, já que as encomendas das outras peças diminuíram. Como minha mãe também é costureira, estou pedindo ajuda a ela para dar conta”. O relato da costureira Elka Ribeiro aponta para o cenário da crescente produção das máscaras artesanais nos últimos dias, desde que o Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) passaram a recomendá-las como proteção alternativa para o evitar o contágio pelo novo coronavírus, principalmente durante saídas do isolamento social para atividades de extrema necessidade. 

Moradora de Feira de Santana, município onde foi registrado o primeiro caso da Covid-19 na Bahia, a profissional teve sua rotina de produção modificada recentemente, com a alteração do tipo de demanda dos clientes. Tudo começou no fim do mês passado. A costureira de artigos infantis, que possui ateliê próprio e também faz parte de uma loja colaborativa, foi informada de que o estabelecimento começou a receber encomendas de máscaras, mas precisava que alguma marca se disponibilizasse a costurá-las. Elka topou o desafio e, desde então, os pedidos começaram a aumentar.

“Depois da orientação dos órgãos de saúde indicando que a população poderia improvisar sua máscara ou usar de tecido para não ficarem escassas as máscaras para os profissionais de saúde, comecei a receber uma mensagem atrás da outra. A gente começou a vender no dia 30 do mês passado. Enviei dez kits contendo três unidades cada. Todos foram vendidos. No dia 31, foram mais uma dezena de kits vendidos. Agora, a gente já está com uma lista de pedidos com 200 unidades”, explicou.

Para confeccionar as peças, a costureira utiliza um tecido do tipo tricoline, com 100% de algodão. Segundo ela, esse tipo de material é mais resistente e suporta a alta temperatura do ferro de passar que é usado na hora de esterilizar o pano. Como lojas de tecido não foram incluídas nos serviços essenciais, com permissão para abrir pela prefeitura de Feira de Santana – que mantém parte do comércio fechado – Elka chegou a ficar preocupada com a falta do material para produzir mais máscaras. “Meus tecidos estavam terminando, aí me indicaram uma loja local que está fazendo vendas por aplicativo. Foi um alívio, porque as lojas online estão com o prazo muito longo para entrega”.

Uso cauteloso

Apesar da recomendação das máscaras ter ganhado força no início deste mês, a coordenadora de oncologia do Hospital Martagão Gesteira, Luciana Nunes, pede cautela aos usuários para que busquem apenas as do tipo artesanal. A médica, que trabalha com pacientes que fazem uso recorrente de máscaras cirúrgicas, ressalta que a Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda recomenda que apenas pacientes sintomáticos, seus contactantes diretos e profissionais de saúde utilizem tal aparato hospitalar. Mesmo pontuando que a eficácia do uso da máscara de algodão ainda seja questionável, ela defende que o uso do artefato de confecção artesanal ajuda no fortalecimento das medidas para evitar aglomerações.

“É válida a utilização desde que sejam máscaras artesanais. De alguma forma, o uso de máscaras pelo outro faz com que a gente aumente a vigilância para o problema. A gente vê uma pessoa com a máscara e isso faz recordar que temos um vírus circulando e devemos manter certo distanciamento entre as pessoas. A eficácia da máscaras de tecido é questionável, mas é uma medida para diminuir o pânico da população e conter a ansiedade”, pontuou.

Médica Luciana Nunes propõe uso cauteloso das máscaras | Foto: Divulgação | Hospital Martagão Gesteira

Devido à eficácia não ser tão alta como a das máscaras de utilização hospitalar, a profissional recomenda que, mesmo com o uso das peças, sejam mantidos os hábitos de higienização das mãos. O rosto também não pode ser tocado, a fim de evitar a contaminação do tecido, que deve ser higienizado. “É necessário, ao chegar em casa, fazer a higienização adequada da máscara, deixando-a de molho com água e hipoclorito de sódio ou água sanitária. Deve-se evitar tocar a parte da frente do tecido durante o uso e, se a máscara ficar úmida durante o dia, ela deve ser trocada“.

Doações

Além dos cuidados redobrados com a higiene como medida de prevenção ao coronavírus, Luciana pontua que as pessoas assintomáticas precisam, de fato, optar pelo uso do material artesanal, deixando as máscaras cirúrgicas e do tipo N95 para os profissionais de saúde, que estão diretamente expostos à doença. Segundo informações da Associação Italiana de Médicos publicadas no mês passado, mais de 60 médicos morreram em decorrência da doença na Itália, que está sofrendo com escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs). É indicado que, quem adquiriu máscaras de uso profissional, possa doá-las para os hospitais.

“É importante que os assintomáticos usem máscaras artesanais, pois existe um problema muito grave que é a falta mundial de EPIs. O medo maior é de que falte máscara em algum momento, pois vamos ultrapassar a capacidade do sistema de saúde. Com essa nova recomendação, existe, sim, um risco de aumento de consumo de máscaras cirúrgicas pela população. Então eu faço um apelo para quem está assintomático: use máscaras artesanais, porque, no hospital, não é possível usar esse tipo de material, pois o risco é infinitamente maior”, alertou a médica, solicitando a doação de máscaras hospitalares ao Martagão Gesteira. 

Iniciativas

Diante da falta de materiais de proteção hospitalar já observada no sistema de saúde como um todo, nesta fase de pandemia, toda ação de solidariedade é bem-vinda. Neste cenário, o sócio da empresa Bahiacril, que trabalha com acrílico na capital baiana, Danilo Sampaio, teve a ideia de doar o que a fábrica poderia oferecer: o protetor facial – equipamento que aumenta as medidas de segurança contra o contágio de doenças pelos profissionais da saúde e é complementar à máscara.

Unidades de protetores faciais foram destinadas à doação | Foto: Arquivo Pessoal

“Somos uma empresa especializada em acrílico. Com a habilidade que temos para dar formas a esse material usando o maquinário e a tecnologia que possuímos, vimos que existia a possibilidade de fazer esses protetores em acrílico e a face em acetato. Para atender aos profissionais que não estavam encontrado esses materiais, tivemos a ideia de viabilizar dessa forma. São peças adaptadas, mas que atendem à demanda de maneira emergencial”, afirmou.  

Parte da produção, cerca de 400 unidades, está sendo distribuída em hospitais de Salvador e outras unidades de saúde, incluindo o Hospital Martagão Gesteira. O desejo de Daniel é de que a iniciativa seja adotada por outras empresas. “Que todos dêem sua contribuição, principalmente as pessoas que têm habilidade e que possuem materiais próximos aos de fabricação de EPIs, pois a escassez é muito grande e existe um cenário de emergência. Mesmo sabendo que não é o material específico – é adaptado – mas, neste momento emergencial e quase de guerra, ele é de extrema utilidade para quem está na linha de frente”.     

Interessados em colaborar com a iniciativa da Bahiacril ou em obter mais informações, acessem o site.

*Sob supervisão da editora Thaís Seixas

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