Quarentena: brasileiros relatam dificuldades no enfrentamento ao coronavírus no exterior

Quarentena: brasileiros relatam dificuldades no enfrentamento ao coronavírus no exterior
Brasileiros e baianos falam sobre efeitos das medidas adotadas em diversos paísesFoto: Reprodução | Arquivo Pessoal

Bianca Carneiro*

Desde a descoberta do primeiro caso de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, em dezembro do ano passado, o mundo inteiro se mobilizou para incorporar medidas que evitassem a disseminação do vírus. A principal foi a exigência do isolamento social, acompanhado do fechamento de comércios, equipamentos culturais, locais de serviço, entre outros, o que provocou diversas mudanças na rotina da população.

Quase um mês após a implantação das contenções na Bahia e no Brasil, o Portal A TARDE conversou com profissionais de saúde e outros brasileiros espalhados pelos grandes epicentros da pandemia ao redor do mundo, que relataram as principais dificuldades em vivenciar a quarentena no exterior.

Espanha

Na Espanha, os dados relacionados à Covid-19 não são nada bons: com quase 10 mil mortos, o país é o segundo no mundo que mais teve vítimas nesta pandemia, ficando atrás apenas da Itália, que acumula quase 13 mil vítimas.

Devido a rígida quarentena voltada a minimizar os efeitos do vírus, a rotina da administradora Sheila Galle, 35 anos, que mora na cidade espanhola de Cáceres está cada vez mais limitada. Ela, que mora há pouco tempo no país junto com seu marido, diz que só estão permitidos o funcionamento de serviços de primeira necessidade como alimentação e saúde até depois da páscoa.

“O governo adotou o lockdown e agora vê-se entre a cruz e a espada, já sabendo que a crise econômica que vem por aí será terrível, assim como o desemprego e a pobreza. Ao mesmo tempo que se tenta não colapsar o sistema de saúde com o decreto de isolamento, teme-se uma recessão nunca antes vista, estamos entre a cruz e a espada, afirma ela que está no país a estudo e se preocupa com o desemprego”, afirma.

Mesmo sentindo falta da rotina mais ativa, Sheila diz que compreende a medida e não a vê como um sacrifício. Para ela, o momento é sobretudo de reflexão sobre o cenário enfrentado.

“Eu tenho tido bastante tempo para refletir a respeito e não consigo ter uma leitura clara de se encerrar fronteiras e isolar 100% da população é a decisão acertada a se tomar, já que o número de desempregados cresce a cada dia em função das empresas não terem faturamento para suportar essa parada econômica”, conta.

Ao comparar a situação de Brasil e Espanha, Sheila diz que apesar do país europeu ter registrado mais mortes, o Brasil tem menos capital para melhorar os recursos de saúde. “Infelizmente o capital é um recurso finito e fica mais fácil para a Espanha, amparada pela União Europeia, se posicionar de maneira mais assistencialista que o Brasil que, claramente, está com as reservas comprometidas”, opina.

Sheila e o marido moram na cidade espanhola de Cáceres | Foto: Reprodução | Arquivo pessoal

Estados Unidos

A enfermeira brasileira Faila Pereira, 36, é uma das profissionais da saúde que está na linha de frente contra o coronavírus em hospitais do estado da Virginia, Estados Unidos. Ela, que mora e trabalha com o marido, também da área de saúde, conta que a rotina ultimamente tem se resumido aos plantões, que precisam ser revezados para que o casal possa cuidar do filho de três anos.

No país, que atualmente reúne mais de 245 mil casos e acabou sendo o novo epicentro da Covid-19, as medidas de contenção adotadas na Virgínia são parecidas com as do mundo inteiro: somente os serviços considerados essenciais estão abertos e os cidadãos só podem sair para comprar algum artigo de necessidade. De acordo com Faila, a determinação intitulada “Stay at Home Order” está prevista para continuar até o dia 10 de junho.

Apesar das dificuldades que sente com o isolamento do filho e na hora de comprar artigos como papel higiênico e álcool gel, Faila diz que os atos em agradecimento aos profissionais de saúde se tornaram um conforto em meio a situação da pandemia.

“Enquanto profissional de saúde, me sinto em uma posição de extrema importância para a nação que sirvo, e ao mesmo tempo muito valorizada pelas autoridades e sociedade. Recebemos todos os dias mensagens e atos de reconhecimento, estímulo e encorajamento. O medo existe, mas é superado com estas ações. Aqui nos EUA, os enfermeiros são considerados os profissionais mais confiáveis da América. Me sinto realizada podendo estar na linha de frente ao combate à Covid-19”, afirma.

Ao falar do Brasil, onde possui diversos familiares na área da saúde, Faila diz que as autoridades ainda não estão em conformidade quanto ao combate da doença. Ela também cita a falta dos equipamentos de proteção individuais (EPIs) e opina que a classe de enfermeiros deveria ser melhor valorizada no país, em comparação com os EUA.

“Vejo que nenhum país estava preparado para esta pandemia, nem mesmo a grande potência que é os EUA. Também precisamos racionalizar o uso aqui (de EPIs) para não faltar no momento mais crítico. Não é uma situação geral, mas está acontecendo em alguns locais. Tenho visto que no Brasil este problema está mais acentuado, com profissionais de saúde tendo que improvisar de fato”, conta.

“Os enfermeiros recebem os piores salários, atuam em uma carga horária muitas vezes excessiva, e não são reconhecidos de forma autônoma. Quando há alguma homenagem a ser feita aos profissionais de saúde no Brasil, o profissional médico é sempre mencionado, e a enfermagem quase nunca. Aqui nos EUA, somos o tempo todo vistos como uma profissão respeitada, recebemos um salário justo, trabalhamos em uma carga horária adequada, e temos autonomia. Independente de pandemia, o Brasil precisa valorizar mais a Equipe de Enfermagem que possui mais de 2 milhões de profissionais em todo o país”, pede.

A enfermeira Faila está na linha de frente do combate ao coronavírus | Foto: Reprodução | Arquivo pessoal

Japão

Considerado um país referência na contenção do novo coronavírus, o Japão tem sido, nos últimos dias, o lar da médica Kerly Abraão Badaró, 40. Ela, que estava presa em Tóquio desde o dia 18 de março após uma viagem pela Europa, conta que o governo japonês não implementou o fechamento de comércio, shoppings, metrôs e templos religiosos. Porém, locais com maior número de casos estão sendo monitorados e as pessoas.

Kerly ressalta ainda, que a própria cultura japonesa de menos contato físico favorece a redução de casos. “O que eu percebi é que a cultura dos japoneses já os ajudam na não propagação do vírus pois eles mantém distanciamento. Elas não se cumprimentam apertando as mãos ou se abraçando, somente inclinam-se para frente”, afirma.

Mesmo de longe, a médica diz que acompanha os casos no Brasil e que se preocupa com a rapidez do avanço. Ela ainda cobra do governo uma melhor orientação à população, especialmente para os brasileiros no exterior.

“Muitas informações chegam a todo momento de diversas formas isso pode acabar confundindo. Acho que os órgãos públicos precisam ser mais proativos para orientar os seus cidadãos principalmente os que estão fora do país, em um momento que gera muitas incertezas”, diz.

Kerly diz que cultura japonesa contribui para contenção do vírus | Foto: Reprodução | Arquivo pessoal

O brasileiro Emerson Coutinho, 45, mora há 22 anos no Japão, com a família. Inspetor de qualidade de uma linha de produção de bancos de carro na cidade de Yokohama, ele diz que não sentiu muitas mudanças na rotina e que o governo, através do seu primeiro ministro, constantemente vai à TV orientar a população sem espalhar pânico.

“Me sinto triste pelas muitas vidas perdidas, e mais triste em ver pessoas querendo que mais gente morra por pura ganância, além de outras muitas se aproveitarem da situação para explorar”, lamenta.

Assim como Kerly, Emerson acredita que a diferença cultural entre brasileiros e japoneses ajuda na contenção do vírus. “As medidas que o governo brasileiro está tomando, acredito que sejam boas. A grande diferença é a população que aqui, procura seguir as recomendações do governo. O que deveria mudar aí é o respeito entre as pessoas, partindo de cada um. Na verdade é oque falta em boa parte do mundo: respeito”, opina.

Emerson diz que a chave para evitar a propagação está no respeito | Foto: Reprodução | Arquivo pessoal

Suécia

Na contramão de alguns países vizinhos, recentemente, a Suécia causou polêmica ao adotar uma política de isolamento bem menos restritiva. Moradora de Gotemburgo há quase quatro anos, a engenheira mecânica, Naiara Pereira, 34, destaca que as autoridades têm investido na conscientização da população e definido medidas importantes para proteger a economia como a liberação de pacotes para os negócios locais e a dedução de taxas na iniciativa de layoff, além da flexibilização do seguro desemprego.

“Foram restringidos eventos com mais de 500 pessoas e visitas a abrigos de idosos para não comprometer os grupos de risco. Algumas medidas especiais foram adotadas para bares e restaurantes também quanto ao distanciamento de mesas, e quantidade de pessoas no local, mas o governo enfatiza que nenhum negócio será obrigado a fechar as portas e que ele confia no bom senso da população”, explica.

No entanto, com a perspectiva de aumento do número de casos fatais, Naiara acredita que as medidas serão intensificadas. Ela conta que é difícil lidar com o isolamento e que teme pela chegada do inverno.

“Nas primeiras duas semanas foi muito difícil de achar produtos no supermercado e farmácias. A dificuldade de lidar com o isolamento vindos de uma cultura como a do Brasil também é muito grande. Mas o pior foi lidar com tudo isso no pico de inverno, onde o país é escuro, os níveis de vitamina D são menores e a sociedade já esmorece naturalmente”, reflete.

Naiara (à esq.) e sua esposa moram na Suécia, que adotou isolamento menos restritivo | Foto: Reprodução | Arquivo pessoal

Irlanda

De acordo com a administradora e dançarina baiana Gabrielle Mascarenhas, 30, as medidas de isolamento na Irlanda começaram um pouco antes do Brasil, com previsão de retorno no dia 20 de abril. Ela, que mora na cidade de Cork, conta que está sem trabalhar ou estudar desde o dia 12 de março e que a população está proibida de se afastar 2 km das suas casas.

Com as medidas restritivas contra as aglomerações, o tradicional desfile de St. Patrick’s Day (Dia de São Patrício), que aconteceria no dia 17 de março precisou ser cancelado. “Me sinto minúscula diante de uma situação sem precedente como essa. De mãos atadas, sem ter o que fazer. Apenas esperando e orando para que tudo isso melhore”, torce.

Por causa da pandemia, Gabrielle não conseguiu vir ao Brasil fazer a sua primeira visita à família desde que se mudou. No entanto, a baiana diz que segue acompanhando as medidas adotadas e discorda da postura adotada pelo presidente Jair Bolsonaro.

“Me senti envergonhada depois do pronunciamento sem lógica e sem nenhuma coerência proferido pelo presidente. Como assim não temos motivo pra temer? Como assim temos que ir pra rua?”, questiona Gabrielle.

Moradora da Irlanda, a baiana Gabrielle lamenta a situação | Foto: Reprodução | Arquivo pessoal

*Sob supervisão da editora Maiara Lopes


*Sob supervisão da editora Maiara Lopes

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